Como fazer uma adaptação: primeiros passos e recomendações

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Como dito em “Qual é a diferença entre Adaptação, Arranjo e Composição?“, uma adaptação é uma acomodação de uma obra com muitos instrumentos, para uma estrutura com menos instrumentos, e vice-e-versa. Ou ainda, quando as técnicas instrumentais são diferentes entre a música original e os instrumentos escolhidos para a adaptação.

Em toda adaptação há o acréscimo ou perda de informações. Sempre que se adapta de um grupo menor para outro maior, melodias são dobradas, notas harmônicas seão reforçadas e uma nova “coloração” será mostrada (que as vezes parece ser diferente do original). Quando se parte de um grupo maior para outro menor, algumas coisas terão que ser excluídas. Nesse caso, pode acontecer do entendimento original ser perdido. Certamente a perda de informações é algo menos preferível. Contudo, o acréscimo de informações não deve modificar (muito) o entendimento original.

Mostrarei a seguir alguns passos que devem ser observados para a realização de uma adaptação. Faço também algumas recomendações de leituras que certamente ajudarão para adaptações, arranjos e composições.

Orquestração

Muitos são os caminhos iniciais que se pode tomar ao começar a escrever uma adaptação. Um dos primeiros passos pode ser comparar a técnica instrumental da peça original com a dos instrumentos escolhidos para a adaptação. Muito pode ser dito sobre isso. Existem muitas minucias próprias nas técnicas de cada instrumento musical.

Se o adaptador já tem um grupo de músicos para realizar a execução da obra, o que de fato eles conseguem tocar também é algo muito importante de ser observado, ou seja, o nível técnico do grupo.

Recomendo uma leitura do livro do Samuel Adler: The Study of Orchestration1. Nele o autor fala sobre a técnica instrumental de vários instrumentos de orquestra (e também os de banda). Ele aborda forma de escrita, transposição, extensão, região mais comum de uso e mostra exemplos de autores já consagrados.

A gramática musical

Existem várias estruturas que são bastante comuns no uso das combinações instrumentais. Essas estruturas se configuram como uma gramática (assim como na linguagem). Fazer algo “muito diferente” pode dar uma “estranheza” não proposital à música adaptada. Há inúmeras obras que podem servir de exemplo para a observação. Eu sempre recomendarei os compositores e obras de música de concerto (erudita). Nesse gênero, os adaptadores sempre têm muito cuidado ao trabalhar com as estruturas das obras. Outros estilos mais ligados à Banda de Música, com autores reconhecidos, também devem ser visitados.

Como exemplo, recomento a escuta com partitura da obra Rapsódia Húngara nº 2, do compositor Franz Liszt. Segue os links do Youtube e IMLSP:

Harmonia e Texturas

Outro passo importante é um estudo prévio da harmonia e das camadas texturais da peça. Em uma peça para orquestra, ou para banda, os papéis texturais mais básicos são melodia, acompanhamento e contraponto. Esses papéis, em geral, estão sobrepostos entre si e, por vezes, em cada camada ocorre outras sobreposições, geralmente em terças e quintas.

Se você vai adaptar de um grupo maior para um com menos instrumentos, quais notas da harmonia e quais melodias das camadas texturais são as mais importantes? Quais são as menos importantes (ou menos perceptíveis aos ouvintes)? Se você vai adaptar de uma formação menor para uma com mais instrumentos, quais linhas melódicas devem ser mais reforçadas?

Recomendo um estudo do livro Tonal Harmony (existe uma tradução bastante utilizada do professor Hugo Ribeiro)2. Nele o autor mostra todos os caminhos mais comuns da música tonal e traz diversos exercícios para treino.

Comentários conclusivos

Assim, os passos iniciais para a realização de uma boa adaptação são:

    1. Comparar a técnica instrumental da peça original com a dos instrumentos escolhidos para a adaptação;
    2. Revisar o nível de dificuldade instrumental da obra original com a dos instrumentistas disponíveis;
    3. Revisar as combinações e usos mais comuns dos instrumentos;
    4. Realizar um estudo prévio da harmonia e das camadas texturais da peça original;
    5. Revisar quais camadas texturais são as mais importantes e quais podem ser descartadas sem muito prejuízo ao entendimento da obra;

Inevitavelmente o adaptador inciante deverá realizar vários testes durante confecção da adaptação. O importante é ter sempre a mente aberta às críticas, principalmente as que atacam as estruturas da adaptação. A repetição da prática de adaptar fornece um maior entendimento das combinações instrumentais e das estruturas fundamentais de uma peça. E isso leva a uma compreensão maior do fazer criativo.

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  1. ADLER, Samuel. The study of orchestration: musical examples. WW Norton, 1982.
  2. KOSTKA, S.; PAYNE, D. Harmonia tonal: com uma introdução à música do século XX. Tradução Hugo L. Ribeiro e Jamary Oliveira e Ricardo Bordini. 2008. Disponível em: http://hugoribeiro.com.br/biblioteca-digital/kostka_Payne-Harmonia_Tonal.pdf, Acesso em 10 de Julho de 2019.

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