Qual é a diferença entre Adaptação, Arranjo e Composição?

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Essa é a pergunta que alguém pode se fazer ao observar alguma partitura que pegou na internet. Quais elementos tornam aquela partitura uma obra original? Ou o que faz dela uma adaptação? Ou ainda, o que faz dela um arranjo?

Existe uma divisão entre adaptação, arranjo e composição. Contudo, muitas vezes essa divisão não é claramente reconhecível. Buscarei explicar cada uma dessas modalidades de criação a seguir.

Adaptação

Uma adaptação é uma acomodação de uma obra com muitos instrumentos, para uma estrutura com menos instrumentos, e vice-e-versa. Ou ainda, quando as técnicas instrumentais são diferentes entre a música original e os instrumentos escolhidos para a adaptação.

O adaptador pode criar estruturas melódicas que modificam minimamente a obra original. Um exemplo disso é que instrumentos de cordas friccionadas, como o violino, podem sustentar notas por um tempo indefinido, enquanto que instrumentos de sopros têm seu limite. Assim, o adaptador têm que buscar uma solução para esse e outros problemas que podem surgir. Contudo, a realização de uma adaptação requer o cuidado para não modificar muito o arranjo ou composição original, em termos de duração, partes, andamento, intensidades, melodias etc.

Durante a história da música, muitos autores fizeram adaptações de orquestra para piano e de piano para orquestra. Um dos mais famosos é Franz Liszt, que adaptou todas as sinfonias de Beethoven para Piano.

Arranjo

Em linhas gerais, um arranjo é uma nova roupagem de uma obra já existente. O arranjador pode criar novas seções, harmonias, contrapontos e até melodias que se somam as da música original e criam uma obra derivada.

A realização de um arranjo requer o cuidado apenas de tornar a música original reconhecível. Muitos arranjos são mais complexos do que a obra original. A dosagem de “coisas novas” que o arranjador coloca na música é bem maior do que em uma adaptação. O limite então é o da criatividade do arranjador.

Recomendo, como observação para o estudo, consultar os arranjos da editora Hall Leonard. Nela, arranjadores famosos no meio de bandas, como Johnnie Vinson, Sean O’Loughlin, Paul Murtha e outros, publicam obras que sempre trazem estruturas novas (harmonia, mudanças de partes, melodias) às músicas arranjadas.

Composição

Uma composição é uma obra original, mas que também pode ser baseada em alguma música já existente. Se for puramente original, o autor não se depara com nenhum limite, a não ser o da sua própria criatividade e técnica. Se for algo baseado em uma peça já existente, o autor tem que tomar o cuidado para não fazer puramente um arranjo e erroneamente chama-lo de composição. Nesse caso, o compositor deve mascarar (em certo grau) a obra na qual ele se baseou.

O mergulho nas minúcias da composição requer um estudo mais aprimorado, principalmente de harmonia, contraponto e orquestração. Esse estudo dará ao jovem compositor um ferramental de técnicas que deverão ser utilizadas durante a sua jornada criativa. Composição musical não é apenas o simples ato de criar melodias, mas sim de como trabalhar todas as estruturas da música dando fluidez e um sentido de continuidade nela. O 1º movimento da 5ª sinfonia de Beethoven é um dos melhores exemplos disso. Com apenas 4 figuras rítmicas combinadas com 2 notas, Beethoven criou uma obra de aproximadamente 7 minutos e 30 segundos. Isso é técnica pura!

“Mas eu quero compor um dobrado, não preciso (quero) saber dessas coisas”. Todos os grandes compositores, mesmo os que se dedicaram a compor obras mais populares (e talvez menos cerebrais), estudaram harmonia, contraponto e orquestração. Isso se deu de diversas formas, inclusive através da observação. Ninguém nasce sabendo compor. Contudo, um estudo guiado por um método de composição (ou guia, livro didático, exercícios, etc) fornece uma lapidação da técnica. Assim como na prática instrumental, a composição requer tempo e treino.

Comentários conclusivos

Com a grande expansão do uso das tecnologias, muitos autores iniciantes vêm aprendendo a criar (músicas) através do uso de softwares, como o Finale, Sibelius, Encore, MuseScore e outros. Isso é algo muito bom, na medida em que pode universalizar o conhecimento do campo da criação musical. Contudo, sem uma orientação adequada e sem conhecimentos de base, esses jovens criadores podem, mesmo que sem nenhuma intenção ruim, tropeçar nos direitos autorais, ou chamar uma adaptação de arranjo, um arranjo de composição, entre outros problemas e incoerências. Ressalto que quaisquer obras derivadas, segundo a lei de direito autoral do Brasil, dependem de “autorização prévia e expressa do autor”1.

  1. BRASIL. Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9610.htm. Acesso em 09 de Julho de 2019.

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